Atacama, uma maravilha da natureza


Logo após a travessia da Cordilheira dos Andes no ano passado, nos perguntávamos qual seria a próxima viagem e se ela desbancaria o que vimos por aquelas bandas. Alguns meses depois, começamos a rascunhar uma nova passagem pela cordilheira (entrando no Chile pelo Paso de Sico e saindo pelo Paso de Jama) para chegar à região de San Pedro de Atacama.

Nos começo deste mês, colocamos o plano em prática: são estes 12 dias de muitas parrillas, cervejas variadas, salares, espetinhos de lhama, teorias para salvar o mundo, balas de coca e até um radiador furado que passo a relatar agora.

Lhamas no trilho

Véspera de viagem é um período tradicionalmente tenso: peguei as ferramentas certas? E as roupas? Remédios? Câmeras? E os carregadores de cada coisa? Quando o primeiro de maio chegou, acabou a tensão e cedo da manhã nos mandamos para a estrada – que, verdade seja dita,  não nos reservou muitas surpresas até São Borja (RS). Cruzada a Ponte Internacional da Integração, estávamos em solo argentino e bastaram poucos minutos para preencher a papelada necessária que oficializa a entrada naquele país; mais alguns quilômetros e já estávamos em Santo Tomé, primeira parada da viagem (para quem gosta de jogos, Santo Tomé tem um cassino com a parafernália tradicional – roleta, cartas, caça-níqueis, etc – junto ao hotel).

Radiador furadoNo segundo dia da viagem, amanheci com uma única preocupação: chegar à ponte General Belgrano, que separa Corrientes de Resistencia, sem colocar as rodas na faixa central da Avenida Independência (apesar de não existirem placas sinalizando, é proibido o trânsito de motocicletas ali e a polícia local está sempre de olho). Em Ituzaingó, entretanto, veio a surpresa desagradável: uma das V-Strom foi sorteada e ganhou uma pedrada no radiador, fazendo um furo por onde escorria rapidamente o líquido de arrefecimento.

E agora, o que fazer?

Depois de uma reunião rápida e uma consulta aos funcionários do pedágio, decidimos entrar na próxima cidade,  mas lá um mecânico de motos nos aconselhou a rodar até Corrientes, capital da província, onde teríamos mais chance de resolver o problema. Vazando estrada a fora, tocamos até a Avenida Independência, onde encontramos o comércio quase todo fechado. O motivo? A hora da siesta vai das 12h às 17h, então a solução foi tomar um sorvete para aplacar o calor e esperar. Pouco depois do meio da tarde, começamos uma peregrinação pelos lugares que poderíamos conseguir ajuda (concessionários Suzuki e Honda, loja de radiadores, etc) e, finalmente, conseguimos a dica que salvou o dia: uma oficina mecânica. Lá, desmontamos a carenagem da DL-650 e em pouco tempo o Sr. Carlos Cuffia soldou o furo no radiador e salvou o dia.

Aí está a equipe depois do serviço pronto:

Equipe da oficina

Resolvido o problema, voltamos à estrada para ver se conseguíamos chegar a Presidencia Roque Sáenz Peña, uma vez que Pampa del Infierno, nosso destino original, parecia longe demais depois de toda a função com o radiador (já passavam das 18h quando saímos de Corrientes). Já noite fechada, chegamos ao hotel e às merecidas Quilmes com lomo a lo pobre.

Pé no Chaco

Cruzar a reta interminável que atravessa o Chaco argentino era o objetivo do dia seguinte, e assim o fizemos. Sem muitas surpresas ou lugares cinematográficos, chegamos a Salta no final do dia; lá, a melhor parrilla da viagem nos esperava no La Candelaria, de onde voltamos rolando para o hotel. O sono foi pesado: o Paso de Sico, previsto para o dia seguinte, nos esperava.

Cedo da manhã, a caminho de San Antonio de los Cobres, abastecemos as motos (e os galões) e encontramos a primeira e única chuva – rala, diga-se de passagem – da viagem, que logo nos abandonou. Sem ela, desnudaram-se as belas paisagens da região e, prêmio final, acabamos encontrando com o Tren a las nubes no caminho. Chegamos ao meio-dia em San Antonio de los Cobres, completamos o tanque das motos e apontamos as motos para a Aduana Argentina, onde executamos os trâmites necessários e, em seguida, tocamos para a Aduana Chilena, que sem demora nos liberou para completar o Paso de Sico.

Sempre que volto de uma viagem que envolve a Argentina, uma pergunta é recorrente: e a Policia Camiñera? Pois dessa vez passamos por várias barreiras e postos sem um problema sequer. Nem uma única vez ao longo de quase 5.000 quilômetros nos solicitaram una contribución para la ruta ou algo parecido. Eu faço votos que esse comportamento discutível seja uma coisa do passado e que os motociclistas e viajantes em geral possam aproveitar suas férias sem preocupações. Nada mais justo, uma vez que, durante as viagens, injetamos nossos reais suados na economia argentina através de hotéis, postos de gasolina e restaurantes.

Chegamos ao destino do dia, dessa vez San Pedro de Atacama, com noite alta – mas ainda havia uma surpresa: como a pousada ficava do outro lado de um riacho, foi preciso atravessá-lo para que pudéssemos descansar as carcaças cansadas. Dominado o riacho – que foi atravessado muitas vezes enquanto estivemos em San Pedro de Atacama, com alguns escorregões mas sem nenhum dano -, começamos a explorar a cidade, suas ruelas, bares, restaurantes, lojas e até uma carniceria, onde compramos carne e carvão para um churrasco sob o céu inigualável do deserto.

Nos três dias em que estivemos lá, visitamos os Geisers del Tatio, o Valle de la Luna, a Laguna Cejar, os Ojos del Salar, a Laguna Tebinquinche, a Laguna Lejía e o Salar de Aguas Calientes (como o tempo foi curto, faltaram outros tantos lugares: essa é a desculpa que usaremos para voltar lá) e em nenhum momento o mal da montanha nos pegou, talvez por conta das balas de coca.

Hora de voltar

Começar a viagem de volta sempre é uma hora triste, mas, neste caso, ainda tínhamos o Paso de Jama para cruzar e sabíamos que ele certamente teria muito a nos apresentar. Logo nos primeiros quilômetros de subida, a mudança nas motos foi nítida e ter paciência foi o melhor remédio; um pouco mais adiante, a temperatura foi caindo rapidamente até bater nos -6°C (às 10h da manhã, com sol alto), onde ficou por muitos quilômetros e nos obrigou a dar uma parada para esperar o sangue voltar às mãos e pés.

Já na Argentina, quando pensamos que as surpresas haviam acabado e agora era só acelerar de volta para casa, a RN-52 apresentou suas curvas, ascendentes e descendentes e com temperatura positiva, para alegria de todos: foram muitos cotovelos sucessivos que testaram a aderência dos pneus e a habilidade (ou a falta dela) dos pilotos. No final do dia, chegamos a San Salvador de Jujuy e encaramos a última parrilla da viagem. Por fim, no dia seguinte, voltamos às retas do norte argentino, cruzamos o chaco, alcançamos a fronteira e voltamos às nossas casas 5.000 km mais experientes.

Rota & distâncias

Origem Caminho Destino Distância
Porto Alegre (BRA) Canoas, Santa Maria, São Borja San Tome (ARG) 600 km
San Tome (ARG) Corrientes Presidencia Roque Sáenz Peña (ARG) 590 km
Presidencia Roque Sáenz Peña (ARG) Pampa del Infierno Salta (ARG) 650 km
Salta (ARG) San Antonio de los Cobres, Paso de Sico, Socaire, Toconao San Pedro de Atacama (CHI) 510 km
San Pedro de Atacama (CHI) Paso de Jama, Susques, Purmamarca San Salvador de Jujuy (ARG) 480 km
San Salvador de Jujuy (ARG) Pampa del Infierno Presidencia Roque Sáenz Peña (ARG) 680 km
Presidencia Roque Sáenz Peña (ARG) Corrientes San Tome (ARG) 590 km
San Tome (ARG) São Borja, Santa Maria, Canoas Porto Alegre (BRA) 600 km

Exceto por um pequeno pedaço da RN-16 com deformações na província de Salta, no norte da Argentina, todos os trechos pavimentados por onde passamos estavam em boas condições; há vários pedágios pelo caminho, tanto no Brasil quanto na Argentina, mas motocicletas são isentas em todos eles e os postos de gasolina existem em quantidade razoável, separados por no máximo 200 km.

Os trechos de chão batido, por outro lado, merecem uma análise mais detalhada:

1. O Paso de Sico, que liga a Argentina ao Chile, possui cerca de 250 km de chão batido e exige tempo, paciência e habilidade para fazer a viagem render: alguns trechos são de saibro, outros com areia solta, muitos com costeletas e noutros tudo ao mesmo tempo. É um caminho belíssimo, mas é preciso estar preparado para encarar a estrada ruim, a ausência quase total de outras pessoas, duas aduanas e o frio, que chega assim que o sol se vai. O último posto de gasolina está localizado em San Antonio de Los Cobres e ele eventualmente fica sem combustível, então abasteça o tanque (e o galão, se for o caso) em Salta.

2. Sendo um dos passeios mais bonitos da região, a ida aos Geisers del Tatio é oferecida por várias empresas, todas no centro de San Pedro de Atacama, a preços razoáveis: é possível subir até o campo geotérmico de moto – são quase 100 km de chão batido -, mas é preciso chegar lá ao redor das 6h para ver o melhor do espetáculo e neste horário a temperatura é muito baixa (quando fomos, -14°C).

3. Valle de la Luna, Ojos del Salar, Laguna Tebinquinche e Laguna Cejar, com a orientação das pessoas da região, podem ser facilmente visitados de moto. Não esqueça de perguntar, além do caminho, quais são os melhores horários para visitar cada um dos pontos turísticos: o pôr-do-sol na Laguna Tebinquinche é imperdível.

4. Apesar de pouco procurados, Laguna Lejía e Salar de Aguas Calientes merecem uma visita demorada tanto por sua beleza quanto pelo caminho entre os vulcões (são cerca de 60 km de chão batido desde a Ruta 23, passando por Talabre: este último, Aguas Calientes, seguramente foi um dos lugares mais bacanas que já conheci). Os amplos espaços de rípio ao largo da estrada convidam à uma brincadeira com as motos.

Números da viagem

  • Distância percorrida (sem contar os passeios): 4.700 km
  • Gasto com gasolina: R$ 600
  • Gasto com hospedagem: R$ 1.000
  • Gasto com comida: R$ 400
  • Consumo médio da BMW F 800 GS: 24 km/l (melhor: 27 km/l; pior: 22 km/l)
  • Custo médio do litro da gasolina (95 octanas): R$ 2,60 na Argentina e R$ 3,50 no Chile

Laguna Tebinquinche

Como diz o ditado, não existe almoço grátis. Os lugares são impressionantes, as paisagens são de tirar o fôlego, as comidas e bebidas variadas, a cultura e as pessoas são uma aula a cada esquina – mas tudo isso tem um preço: a boa notícia é que basta organizar bem a empreitada para ele ser relativamente baixo. Na minha opinião, vale cada minuto investido em planejamento, cada problema mecânico, cada estrada ruim, cada centavo, cada quilômetro, cada dia. Vá lá e depois me conte se vale ou não vale.

Gracias pela parceria, gurizada. Até a próxima!

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