Carnaval no chão batido


Rota: Litoral Norte do Rio Grande do Sul

Distância percorrida: 270 km

O feriado de carnaval é tradicionalmente dedicado aos eventos familiares, sem motocada alguma nos planos. Neste último, entretanto, levei comigo a Tornado e aproveitei o começo das manhãs para avaliar o quanto eu havia perdido da minha habilidade de pilotar em estradas de chão batido.

Meu inseparável GPS, imprescindível para que eu achasse o caminho de casa no emaranhado de estradas de chão da região de Osório (RS), precisou de um ajuste no suporte, já que não há espaço para ele abaixo da trave do guidão da Tornado. A solução, ao contrário do caso da Fat Boy, foi fazer um enchimento para a abraçadeira original com uma borracha no interior para evitar que ele escorregasse com a vibração.

Sem mais delongas, vamos aos trechos percorridos:

1. Morro da Borússia
Apesar dos quase 90 km que rodei pelo morro, ainda há muitos outros lugares para conhecer; por onde andei, encontrei principalmente estradas de saibro e algumas poucas de barro e pedras soltas. A dificuldade está na combinação entre a subida ou descida e o tipo de piso: se para cima a tração resolve a maioria dos problema de aderência, para baixo o cuidado precisa ser redobrado, já que mesmo com as rodas travadas a moto segue descendo.

Em uma parada para abastecimento (no município de Caraá), fui surpreendido por um efeito colateral do chão batido: os parafusos da placa haviam caído e ela estava presa apenas pelo arame do lacre. A solução temporária (que, como todas, ainda está lá) foi utilizar um fio elétrico para fixá-la no suporte. Um pouco mais adiante, foi a vez do GPS me pregar uma peça: seguindo uma trilha que deveria acabar em uma estrada, acabei no quintal de uma casa, para surpresa dos moradores; debaixo de olhares curiosos, só me restou dar de ombros, apontar para o infeliz aparelho eletrônico e voltar pelo mesmo caminho.

2. Tramandaí, Capivari do Sul e Osório
Rodar na beira do mar exige muita atenção por parte do piloto, já que o piso muda rapidamente – de areia firme para solta, por exemplo – e os obstáculos (como barras ou esgotos pluviais) surgem sem dar aviso. Mesmo no início da manhã, horário que escolhi para não atrapalhar os banhistas, é preciso ficar de olho nos veranistas festeiros que antes de voltarem às suas casas após uma noite na gandaia resolvem botar à prova seus carros nas areias da praia.

Nas estreitas estradas vicinais do interior é preciso ficar de olho nos veículos pesados (tratores, colheitadeiras, etc) que podem estar rodando devagar ou parados após uma curva, exigindo uma reação rápida que muitas vezes é prejudicada pelo piso escorregadio. Os trilhos deixados por estes veículos pesados também podem se transformar em armadilhas, uma vez que mudam o comportamento da moto e podem fazê-la tomar uma direção imprevista.

3. Caconde, Palmital e Atlântida Sul
Rodando quase que exclusivamente em solo Osoriense (Atlântida Sul é um distrito de Osório), a rota do dia 8 foi a mais tranquila das três e apenas nas estradas de saibro era necessário tomar um pouco mais de cuidado. Esse também foi o dia com o maior trecho asfaltado e manter uma velocidade de cruzeiro de 100 km/h não foi difícil nem me pareceu estar exigindo mais que o motor tem para dar.

Mais uma vez coloquei a Tornado na areia solta – onde passei com a Fat Boy no final de janeiro – e aos poucos a pilotagem nesse tipo de terreno foi se tornando mais divertida. Nas regiões onde o mato avança sobre a estrada, após levar uma surra dos galhos de um Maricá, entendi porque o protetor de mão é tão importante.

Depois disso tudo, concluo o seguinte:

  • a Tornado tem um porte adequado para encarar tanto as subidas e descidas de morro quanto a areia solta da beira da praia; os pneus que estou usando, entretanto (os Metzeler originais), limitam o acesso quando o piso exige cravos;
  • é impressionante como uma moto com suspensão de curso longo ignora solenemente os buracos e as costeletas da estrada (o banco também ajuda nesse quesito). Outro aspecto importante é a possibilidade de pilotar de pé, flexionando os joelhos para absorver os impactos e descansar as pernas;
  • como medir o consumo não era o objetivo dessa motocada, não tenho um número exato para informar – mas o consumo da Tornado é para lá de comportado, mesmo com o tipo de exigência dos trechos por onde passei (eu chutaria algo na casa dos 30 km/l);
  • ao contrário das minhas últimas experiências, a Tornado exige o motor sempre cheio para que haja potência e torque decentes: de início me pareceu estranho e potencialmente danoso ao motor, mas é pura falta de hábito;
  • ainda vai demorar um bom tempo para que eu me acostume novamente com as derrapagens controladas e as retomadas que permitem a execução das curvas com mais velocidade; já foi possível aproveitar um pouco nos trechos sinuosos, mas por vezes o barranco parecia se mover na minha direção;
  • uma luz espia que indicasse o uso da sexta marcha cairia bem.

Em suma, estou muito satisfeito com a moto e com certeza recomendaria a Tornado para quem tivesse interesse em rodar por estradas de piso imperfeito; para mim, é quase um retorno à infância e suas estradas de barro onde, com frequência, eu passava o dia pedalando minha BMX. Diversão pura.

15 Comentários

Agora sim paisano !!!

Show de bola o relato…fiquei com vontade de ir comprar uma pra mim tb !!!

opssss peraí, mas eu já tenho uma moto pra isso……

rá, pegadinha do malandro…..

Grande Piréx.

Show de bola o relato. Gostei demais das fotos. É incrível o que se consegue de imagens andando pelas estradas de terra. Isso faz-me lembrar o meu tempo de Sahara 350 e máquina de filme.

Abração.

Muito legal essa Piréx.
Tá ficando cada vez mais profissional essa viradinha da câmera, hein?
E outra: é boa essa suspensão da Tornado… dispensa o estabilizador da câmera…

Como disse o Tara, fiquei com vontade também… e moto também já tenho…

Abraços.

Xouzaço de buela, Piréx! Motocar fora-de-estrada é divertido demais. Me lembrei (com saudades) dos meus tempos de ófirroud numa DT 125 e depois numa XL 250!

E as fotos estão ótimas! Parabéns!

Só acho que tu podias contar mais alguns lances pitorescos da aventura. A gente fica com um gostinho de quero mais…

Baita abraço.

@André
Vamos organizar aquela indiada pela beira da praia…

Má credo !! 🙂

Demais paisano, que baita trip, como o pessoal já falou, da vontade de rodar off-road !

O video com essa trilha sonora ficou muito show ! \o/

Mas conta aí, nenhum sustinho rodando nessa terra e areia toda? Já estás craque na derrapagem controlada ? hehe

forte abraço !

Tara:
Então vamos meter a amarelona no chão batido… É só avisar quando.

Pedro:
Um dos meus amigos já disse – e ele tem razão – que eu sou o campeão dos resgates afetivos, já que vivo visitando os lugares onde passei ou morei; agora, com a Tornado, mais uma vez revivo as experiências do passado. Recordar é viver.

André:
Essa câmera (W320) realmente tem um estabilizador muito bom, ao contrário de outra que tenho (W90). E a suspensão ajuda, claro (além do piloto estar com a marcha lenta regulada).

Diabolin:
Pelo jeito a maioria de nós começou (ou pelo menos passou) pelas predecessoras das atuais dual-purpose, mães – ou avós – das V-Stroms, BMWs e Varaderos que rodam por aí.

Roger:
Sustinho não, sustão – e a toda hora. Eu até comentei que cair é uma questão de tempo, já que a pilotagem vai ficando divertida e mais arriscada e estou muito longe de conseguir entrar e sair das curvas como gostaria.

Abraços!

Grande Pirex…….show de bola, como é bom viajar com suas aventuras…um abraço do seu nova fã: Chagas

Francisco, o mais interessante é que eu viajo outra vez quando publico as motocadas aqui no blog e não raro, depois de algum tempo, releio o artigo e viajo novamente.

Grande abraço!

Essa foi minha primeira moto e, apesar de não ser afeito a offroads radicais, posso te garantir que a tornado é uma moto bem divertida e de fácil condução, até para um iniciante de estatura nem tanto privilegiada, como era meu caso. E o consumo é, sim, bem comportado.
E, como disse o André, a viradinha tá cada vez mais profissa – congratulations!
Muita lama pra você, camarada!

Este seria uma maravilhoso roteiro para um sábado de manhã, criando assim uma típica barranqueada gaudéria, que poderia ser mensal, muito melhor que um encontro…com a tropa sul toda, desde que eles gostem de andar de moto de tempos em tempos…

Abraços invejosos,

Ovelha

Fico imaginando meu amigo Pirex….quando então vc rever as matárias, o quanto deve agradecer a DEUS por tudo..parabéns campeão!!. um gnde abraço e uma boa semana pra vc.

Henrique:
Eu gostei bastante da minha escolha. Em parte ela me lembra muito o início da minha vida de motoqueiro (como observador, na adolescência, e como usuário no início da vida adulta) e de alguma forma isso me renova.

Ovelha:
É só botar uma pilha nesse povo do Sul que eles enveredam para a estrada. Às vezes é preciso incomodar um pouco mais os roda-presa (para eles se animarem), mas é assim mesmo.

Francisco:
Claro que agradeço… Todos os dias.

Abraços!

Peguei o link do teu blog la no Forum Tornadeiros e vim dar uma espiada. Muito show essas voltas por estradas vicinais, curto muito isso, qdo quiser parceria é só avisar. Abraço

Sem Destino, um dos principais objetivos do Diário de Bordo é compartilhar informações sobre onde rodar: espie à vontade. Seguramente vamos conciliar as agendas e marcar uma motocada juntos em breve.

Grande abraço!

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