Serra do Corvo Branco e Serra do Rio do Rastro


Rota: Porto Alegre (RS) / Torres (RS) / Tubarão (SC) / Braço do Norte (SC) / Grão Pará (SC) / Urubici (SC) / Bom Jardim da Serra (SC) / Lauro Müller (SC) / Criciúma (SC) / Araranguá (SC) / Torres (RS) / Porto Alegre (RS)

Distância percorrida: 870 km

A Serra do Rio do Rastro sempre foi um destino interessante para a maioria dos motociclistas, mesmo os que já passaram por ela (que é o meu caso, sempre acabo voltando lá); muito próximo dela está a Serra do Corvo Branco – que ganhou esse nome por conta do Urubu-Rei, chamado erroneamente de corvo -, por onde passa a SC-370, estrada que liga os municípios de Grão Pará e Urubici e onde, por uma dessas coisas sem explicação, eu nunca havia passado. Para finalmente conhecer a Serra do Corvo Branco, fiz uma rota subindo por ela, de Grão Pará a Urubici, e descendo pela Serra do Rio do Rastro.

Até Grão Pará a estrada é pavimentada, então não há o que comentar: dali em diante começam os trechos de chão batido, com algumas sobras de asfaltamentos passados, mas nada que possa preocupar. No pé da serra, entretanto, o panorama começa a mudar com subidas íngremes, curvas fechadas, pedras soltas e um trânsito acima do que eu esperava, inclusive de caminhões: na maior parte da estrada os carros não passam lado a lado, em algumas nem a moto e um carro (buzine ao entrar nas curvas), então o jeito é parar e procurar um canto seguro. Isso não seria um problema se o piso fosse mais estável, então é preciso pensar bem cada movimento principalmente se o visitante estiver com uma moto grande, o que não recomendo pela facilidade com que se pode cair ou fritar a embreagem recomeçando a subida após um encontro com um veículo.

As paisagens, por outro lado, valem a pena. Para onde quer que se olhe, há escarpas, pequenas cascatas, floresta nativa, uma festa verde. Após poucos quilômetros de subida está a pedra cortada, parte inicial da serra para quem vem no sentido contrário (de Urubici a Grão Pará), que é justamente o caminho que recomendo para quem quiser conhecer o Corvo Branco com tranquilidade.

Escalada a Serra do Corvo Branco restava descer a Serra do Rio do Rastro, um dos destinos obrigatórios para motociclistas que possui paisagens de tirar o fôlego. Em questão de minutos, entre Urubici e Bom Jardim da Serra, a temperatura caiu 10 graus e uma forte neblina tomou conta da estrada e fazendo com que fosse necessário rodar devagar por conta da visibilidade de poucos metros. Na chegada ao mirante do Rio do Rastro, o previsível aconteceu e a serra estava completamente escondida, o que torna a descida mais delicada por conta da névoa branca que toma conta de tudo e impede até mesmo que se enxergue o cânion e os veículos mais à frente, além de um fluxo constante de água em várias partes da SC-390.

No pé da serra a chuva me alcançou e foi comigo até Porto Alegre, mas intercalada com períodos de sol não foi suficiente para me obrigar a colocar a capa de chuva. No final das contas, depois de rodar por essas duas serras no mesmo dia, a chuva só lavou por fora para acompanhar a alma lavada.

 

Atacama, uma maravilha da natureza


Logo após a travessia da Cordilheira dos Andes no ano passado, nos perguntávamos qual seria a próxima viagem e se ela desbancaria o que vimos por aquelas bandas. Alguns meses depois, começamos a rascunhar uma nova passagem pela cordilheira (entrando no Chile pelo Paso de Sico e saindo pelo Paso de Jama) para chegar à região de San Pedro de Atacama.

Nos começo deste mês, colocamos o plano em prática: são estes 12 dias de muitas parrillas, cervejas variadas, salares, espetinhos de lhama, teorias para salvar o mundo, balas de coca e até um radiador furado que passo a relatar agora.

Lhamas no trilho

Véspera de viagem é um período tradicionalmente tenso: peguei as ferramentas certas? E as roupas? Remédios? Câmeras? E os carregadores de cada coisa? Quando o primeiro de maio chegou, acabou a tensão e cedo da manhã nos mandamos para a estrada – que, verdade seja dita,  não nos reservou muitas surpresas até São Borja (RS). Cruzada a Ponte Internacional da Integração, estávamos em solo argentino e bastaram poucos minutos para preencher a papelada necessária que oficializa a entrada naquele país; mais alguns quilômetros e já estávamos em Santo Tomé, primeira parada da viagem (para quem gosta de jogos, Santo Tomé tem um cassino com a parafernália tradicional – roleta, cartas, caça-níqueis, etc – junto ao hotel).

Radiador furadoNo segundo dia da viagem, amanheci com uma única preocupação: chegar à ponte General Belgrano, que separa Corrientes de Resistencia, sem colocar as rodas na faixa central da Avenida Independência (apesar de não existirem placas sinalizando, é proibido o trânsito de motocicletas ali e a polícia local está sempre de olho). Em Ituzaingó, entretanto, veio a surpresa desagradável: uma das V-Strom foi sorteada e ganhou uma pedrada no radiador, fazendo um furo por onde escorria rapidamente o líquido de arrefecimento.

E agora, o que fazer?

Depois de uma reunião rápida e uma consulta aos funcionários do pedágio, decidimos entrar na próxima cidade,  mas lá um mecânico de motos nos aconselhou a rodar até Corrientes, capital da província, onde teríamos mais chance de resolver o problema. Vazando estrada a fora, tocamos até a Avenida Independência, onde encontramos o comércio quase todo fechado. O motivo? A hora da siesta vai das 12h às 17h, então a solução foi tomar um sorvete para aplacar o calor e esperar. Pouco depois do meio da tarde, começamos uma peregrinação pelos lugares que poderíamos conseguir ajuda (concessionários Suzuki e Honda, loja de radiadores, etc) e, finalmente, conseguimos a dica que salvou o dia: uma oficina mecânica. Lá, desmontamos a carenagem da DL-650 e em pouco tempo o Sr. Carlos Cuffia soldou o furo no radiador e salvou o dia.

Aí está a equipe depois do serviço pronto:

Equipe da oficina

Resolvido o problema, voltamos à estrada para ver se conseguíamos chegar a Presidencia Roque Sáenz Peña, uma vez que Pampa del Infierno, nosso destino original, parecia longe demais depois de toda a função com o radiador (já passavam das 18h quando saímos de Corrientes). Já noite fechada, chegamos ao hotel e às merecidas Quilmes com lomo a lo pobre.

Pé no Chaco

Cruzar a reta interminável que atravessa o Chaco argentino era o objetivo do dia seguinte, e assim o fizemos. Sem muitas surpresas ou lugares cinematográficos, chegamos a Salta no final do dia; lá, a melhor parrilla da viagem nos esperava no La Candelaria, de onde voltamos rolando para o hotel. O sono foi pesado: o Paso de Sico, previsto para o dia seguinte, nos esperava.

Cedo da manhã, a caminho de San Antonio de los Cobres, abastecemos as motos (e os galões) e encontramos a primeira e única chuva – rala, diga-se de passagem – da viagem, que logo nos abandonou. Sem ela, desnudaram-se as belas paisagens da região e, prêmio final, acabamos encontrando com o Tren a las nubes no caminho. Chegamos ao meio-dia em San Antonio de los Cobres, completamos o tanque das motos e apontamos as motos para a Aduana Argentina, onde executamos os trâmites necessários e, em seguida, tocamos para a Aduana Chilena, que sem demora nos liberou para completar o Paso de Sico.

Sempre que volto de uma viagem que envolve a Argentina, uma pergunta é recorrente: e a Policia Camiñera? Pois dessa vez passamos por várias barreiras e postos sem um problema sequer. Nem uma única vez ao longo de quase 5.000 quilômetros nos solicitaram una contribución para la ruta ou algo parecido. Eu faço votos que esse comportamento discutível seja uma coisa do passado e que os motociclistas e viajantes em geral possam aproveitar suas férias sem preocupações. Nada mais justo, uma vez que, durante as viagens, injetamos nossos reais suados na economia argentina através de hotéis, postos de gasolina e restaurantes.

Chegamos ao destino do dia, dessa vez San Pedro de Atacama, com noite alta – mas ainda havia uma surpresa: como a pousada ficava do outro lado de um riacho, foi preciso atravessá-lo para que pudéssemos descansar as carcaças cansadas. Dominado o riacho – que foi atravessado muitas vezes enquanto estivemos em San Pedro de Atacama, com alguns escorregões mas sem nenhum dano -, começamos a explorar a cidade, suas ruelas, bares, restaurantes, lojas e até uma carniceria, onde compramos carne e carvão para um churrasco sob o céu inigualável do deserto.

Nos três dias em que estivemos lá, visitamos os Geisers del Tatio, o Valle de la Luna, a Laguna Cejar, os Ojos del Salar, a Laguna Tebinquinche, a Laguna Lejía e o Salar de Aguas Calientes (como o tempo foi curto, faltaram outros tantos lugares: essa é a desculpa que usaremos para voltar lá) e em nenhum momento o mal da montanha nos pegou, talvez por conta das balas de coca.

Hora de voltar

Começar a viagem de volta sempre é uma hora triste, mas, neste caso, ainda tínhamos o Paso de Jama para cruzar e sabíamos que ele certamente teria muito a nos apresentar. Logo nos primeiros quilômetros de subida, a mudança nas motos foi nítida e ter paciência foi o melhor remédio; um pouco mais adiante, a temperatura foi caindo rapidamente até bater nos -6°C (às 10h da manhã, com sol alto), onde ficou por muitos quilômetros e nos obrigou a dar uma parada para esperar o sangue voltar às mãos e pés.

Já na Argentina, quando pensamos que as surpresas haviam acabado e agora era só acelerar de volta para casa, a RN-52 apresentou suas curvas, ascendentes e descendentes e com temperatura positiva, para alegria de todos: foram muitos cotovelos sucessivos que testaram a aderência dos pneus e a habilidade (ou a falta dela) dos pilotos. No final do dia, chegamos a San Salvador de Jujuy e encaramos a última parrilla da viagem. Por fim, no dia seguinte, voltamos às retas do norte argentino, cruzamos o chaco, alcançamos a fronteira e voltamos às nossas casas 5.000 km mais experientes.

Rota & distâncias

Origem Caminho Destino Distância
Porto Alegre (BRA) Canoas, Santa Maria, São Borja San Tome (ARG) 600 km
San Tome (ARG) Corrientes Presidencia Roque Sáenz Peña (ARG) 590 km
Presidencia Roque Sáenz Peña (ARG) Pampa del Infierno Salta (ARG) 650 km
Salta (ARG) San Antonio de los Cobres, Paso de Sico, Socaire, Toconao San Pedro de Atacama (CHI) 510 km
San Pedro de Atacama (CHI) Paso de Jama, Susques, Purmamarca San Salvador de Jujuy (ARG) 480 km
San Salvador de Jujuy (ARG) Pampa del Infierno Presidencia Roque Sáenz Peña (ARG) 680 km
Presidencia Roque Sáenz Peña (ARG) Corrientes San Tome (ARG) 590 km
San Tome (ARG) São Borja, Santa Maria, Canoas Porto Alegre (BRA) 600 km

Exceto por um pequeno pedaço da RN-16 com deformações na província de Salta, no norte da Argentina, todos os trechos pavimentados por onde passamos estavam em boas condições; há vários pedágios pelo caminho, tanto no Brasil quanto na Argentina, mas motocicletas são isentas em todos eles e os postos de gasolina existem em quantidade razoável, separados por no máximo 200 km.

Os trechos de chão batido, por outro lado, merecem uma análise mais detalhada:

1. O Paso de Sico, que liga a Argentina ao Chile, possui cerca de 250 km de chão batido e exige tempo, paciência e habilidade para fazer a viagem render: alguns trechos são de saibro, outros com areia solta, muitos com costeletas e noutros tudo ao mesmo tempo. É um caminho belíssimo, mas é preciso estar preparado para encarar a estrada ruim, a ausência quase total de outras pessoas, duas aduanas e o frio, que chega assim que o sol se vai. O último posto de gasolina está localizado em San Antonio de Los Cobres e ele eventualmente fica sem combustível, então abasteça o tanque (e o galão, se for o caso) em Salta.

2. Sendo um dos passeios mais bonitos da região, a ida aos Geisers del Tatio é oferecida por várias empresas, todas no centro de San Pedro de Atacama, a preços razoáveis: é possível subir até o campo geotérmico de moto – são quase 100 km de chão batido -, mas é preciso chegar lá ao redor das 6h para ver o melhor do espetáculo e neste horário a temperatura é muito baixa (quando fomos, -14°C).

3. Valle de la Luna, Ojos del Salar, Laguna Tebinquinche e Laguna Cejar, com a orientação das pessoas da região, podem ser facilmente visitados de moto. Não esqueça de perguntar, além do caminho, quais são os melhores horários para visitar cada um dos pontos turísticos: o pôr-do-sol na Laguna Tebinquinche é imperdível.

4. Apesar de pouco procurados, Laguna Lejía e Salar de Aguas Calientes merecem uma visita demorada tanto por sua beleza quanto pelo caminho entre os vulcões (são cerca de 60 km de chão batido desde a Ruta 23, passando por Talabre: este último, Aguas Calientes, seguramente foi um dos lugares mais bacanas que já conheci). Os amplos espaços de rípio ao largo da estrada convidam à uma brincadeira com as motos.

Números da viagem

  • Distância percorrida (sem contar os passeios): 4.700 km
  • Gasto com gasolina: R$ 600
  • Gasto com hospedagem: R$ 1.000
  • Gasto com comida: R$ 400
  • Consumo médio da BMW F 800 GS: 24 km/l (melhor: 27 km/l; pior: 22 km/l)
  • Custo médio do litro da gasolina (95 octanas): R$ 2,60 na Argentina e R$ 3,50 no Chile

Laguna Tebinquinche

Como diz o ditado, não existe almoço grátis. Os lugares são impressionantes, as paisagens são de tirar o fôlego, as comidas e bebidas variadas, a cultura e as pessoas são uma aula a cada esquina – mas tudo isso tem um preço: a boa notícia é que basta organizar bem a empreitada para ele ser relativamente baixo. Na minha opinião, vale cada minuto investido em planejamento, cada problema mecânico, cada estrada ruim, cada centavo, cada quilômetro, cada dia. Vá lá e depois me conte se vale ou não vale.

Gracias pela parceria, gurizada. Até a próxima!

Rumo ao Pacífico: 5.000 quilômetros entre Porto Alegre e Viña del Mar


Alcei a perna no pingo / E saí sem rumo certo
Olhei o pampa deserto / E o céu fincado no chão
Troquei as rédeas de mão / Mudei o pala de braço
E vi a lua no espaço / Clareando todo o rincão

Os versos do poeta João da Cunha Vargas (musicados por Vitor Ramil no disco Ramilonga) ecoaram dentro do meu capacete ao longo dos pouco mais de 5 mil quilômetros que rodamos entre a capital de todos os gaúchos e Viña del Mar, comuna chilena localizada na província de Valparaíso.

O plano era simples: cruzar o Pampa e a Cordilheira dos Andes para alcançar o Oceano Pacífico, riscando uma linha quase reta de um lado a outro da América do Sul. Foram 10 dias sem chuva, pneu furado ou problema mecânico, o que nos permitiu aproveitar a neve, as cervejas locais, as parrilladas e muito mais. É o que passo a contar agora.

Motoqueiros na Cordilheira dos Andes

A ida

O primeiro dia de qualquer viagem é sempre de muita empolgação; ainda assim, a BR-290 (que liga Porto Alegre a  Uruguaiana) é uma velha conhecida de todos e não deveria nos surpreender – mas o tempo, quem diria, sim: ninguém apostaria que o dia mais frio de uma motocada através da cordilheira aconteceria quase ao nível do mar.

O dia seguinte começou cedo, com uma sensação térmica bem mais modesta, e depois dos trâmites de entrada na Argentina atacamos o mesmo trecho que percorremos em 2010 até Santa Fe, que no começo está em ótimas condições (com apenas um desvio e vários segmentos duplicados) mas entre San Jaime de la Frontera e Federal o concreto da RN-127 está quebrado ao longo de mais ou menos 20 quilômetros.

Chegamos a San Francisco no meio da tarde, em pleno feriado de 1º de maio, e pudemos ver os parques lotados de pessoas de todas as idades correndo, pedalando ou apenas mateando na sombra. Estávamos atrasados e ficaríamos mais ainda por conta das muitas cidades no caminho até Villa María, onde chegamos já com a noite fechada e, depois de descarregarmos as motos, comemos a primeira de muitas parrilladas.

Com a cabeça pesando mais que o normal (culpa das Quilmes na noite anterior), colocamos as motos na estrada às 7h30min para cumprir a meta do dia: chegar antes da noite em Mendoza. Apesar das paradas, lá pelo meio da tarde avistamos ao longe a pré-cordilheira, uma parede de pedra suntuosa visível a dezenas de quilômetros de distância. Com o sol na testa, entramos em Mendoza e fomos direto ao hotel para os procedimento de praxe (seguidos de uma caminhada pela Plaza Independencia e outra parrillada).

A manhã chegou rápido e com ela o primeiro trecho de chão batido da viagem, entre Mendoza e Uspallata; é quase impossível não parar a cada curva para fotografar o visual lunar da RP-52: são quilômetros de subida, com curva em cima de curva, que desembocam em um planalto a 3.000 metros de altura onde enxergamos, pela primeira vez, a neve no topo das montanhas. Descemos até Uspallata e não demorou para que chegássemos à cordilheira, um lugar de beleza inexplicável: quase sozinhos na estrada, foi possível reduzir a velocidade e contemplar a beleza dos rios, túneis, pontes, morros e da neve que se aproximava cada vez mais da estrada. A intenção inicial era subir até a estátua do Cristo Redentor e cruzar a cordilheira pelo caminho antigo, mas a quantidade de neve impediu que fizéssemos isso – e, a bem da verdade, não conseguimos sequer passar da primeira curva, onde chegamos com muito esforço, alguns sustos, vários escorregões e poucos tombos.

De volta ao asfalto, atravessamos o Túnel do Cristo Redentor e logo chegamos à aduana integrada (do lado chileno): para ingressar no Chile, é preciso descobrir o que fazer e, em seguida, passar por 5 guichês, que carimbarão pelo menos 7 vezes a papelada, para só então ter a moto revistada, cheirada pelos cachorros e revistada novamente. Este processo demorou quase 2 horas, o que fez com que chegássemos tarde da noite em Viña del Mar. A compensação veio no dia seguinte, quando caminhamos pela beira-mar, fomos até Valparaíso, comemos e bebemos nos restaurantes locais e nos preparamos para botar o pé na estrada de volta para casa.

Muitos carimbos

A volta

Sem a necessidade de parar a todo momento para documentar os detalhes, a volta transcorreu com rapidez até a cordilheira, onde encostamos as motos mais uma vez para apreciar o visual ao mesmo tempo belo e assustador da montanha e a neve que chegava ao meio da canela. Voltamos à estrada para passar mais uma vez pela aduana integrada (dessa vez do lado argentino, que possui um procedimento muito mais organizado: os veículos entram em uma fila e ali os documentos são revisados e carimbados; nenhuma mala foi revistada) e descobrimos que um dos integrantes – o mesmo que esqueceu a identidade em 2009 – havia perdido um papel que deveria ser apresentado no regresso à Argentina. Problema resolvido, entramos na fila da vistoria e quando chegou a vez do perdedor de papéis, ele se deu conta que outro documento tinha ficado pelo caminho. Haja coração…

Ainda na cordilheira, visitamos o Parque Provincial Aconcágua, de onde se pode ver o pico de 7.000 metros de altura que dá nome ao parque, e passamos novamente pela Puente del Inca, onde há uma feira permanente de artesanato. Chegamos a Mendoza no final do dia e descansamos as carcaças cansadas, preparando os pés para uma caminhada de vários quilômetros no dia seguinte pela cidade.

Apesar de longa, a motocada do antepenúltimo dia transcorreu com facilidade e só nos demos conta que estávamos quase sem pesos argentinos em Villa María; como era cedo, procuramos uma casa de câmbio e lá fomos informados que o valor mínimo para troca era de R$ 500. Como não tínhamos essa quantidade de reais, fomos à outra casa de câmbio, mas lá não era possível fazer a troca e voltamos à primeira, onde um habilidoso motoqueiro do grupo convenceu a atendente a trocar pouco mais de R$ 200 por pesos. Depois do estresse inicial, para comemorar, resolvemos tomar uma cerveja – mas os cafés do centro não aceitavam cartão de crédito e precisávamos poupar nossos pesos para a gasolina, de forma que compramos 4 cervejas em um supermercado e saímos bebendo pela rua. Enquanto os demais xeretavam uma vitrine, eu tomava minha cerveja olhando para o nada quando uma policial encostou do meu lado e disse:

– É proibido beber na via pública.

Meio atordoados com a carraspana da policial (que ficou nos cuidando com o canto do olho enquanto nos afástavamos), voltamos ao supermercado para terminar de beber as cervejas, onde um dos viajantes teve a ideia de documentar aquela cena inusitada – mas ele mal sacou a máquina fotográfica e foi abordado por uma funcionária do supermercado:

– É proibido fotografar dentro do supermercado.

Com o rabo no meio das pernas (não era proibido), voltamos ao hotel (também não era proibido) e tomamos outras lá (torcendo para que não fosse proibido). Acabamos rindo muito da história toda, mas discretamente: não tínhamos certeza se era proibido ou não.

Por fim, rodamos até Uruguaiana e no dia seguinte de lá para Porto Alegre, fechando com chave de ouro uma viagem perfeita. De minha parte, resta agradecer ao Patrão Velho pela proteção e aos meu companheiros de estrada pela parceria e pela paciência ao longos destes 10 dias.

¡Gracias, bugrada!

Só na estrada

Detalhes da rota

Caminho (por dia) Distância
Porto Alegre (BRA)/Rosário do Sul (BRA)/Uruguaiana (BRA) 630 km
Uruguaiana (BRA)/Federal (ARG)/Santa Fe (ARG)/San Francisco (ARG)/Villa María (ARG) 760 km
Villa María (ARG)/Rio Cuarto (ARG)/La Toma (ARG)/San Luis (ARG)/Mendoza (ARG) 620 km
Mendoza (ARG)/Uspallata (ARG)/Los Andes (CHI)/Quillota (CHI)/Viña del Mar (CHI) 410 km

Apesar da rota escolhida não ser problemática quanto ao piso e a quilometragem diária não ser nenhum absurdo, a experiência nos ensinou algumas lições simples, resultado das decisões que tomamos, que merecem ser compartilhadas:

  1. Na ida, entre Porto Alegre e Uruguaiana, resolvemos almoçar lá pelo meio da tarde por que estávamos com tempo sobrando; como o posto de gasolina onde paramos possuía um restaurante, nos abancamos em uma mesa, comemos feito condenados e depois, já na estrada, a soneira bateu forte. Nos dias seguintes não almoçamos mais, somente comemos lanches leves pelo caminho.
  2. Os 760 km entre Uruguaiana e Villa Maria não seriam demorados de percorrer se não tivéssemos a imigração para passar (em Paso de los Libres) e, maior fator de atraso, várias cidades pequenas para atravessar, onde parávamos em sinaleiras e ficávamos presos atrás de caminhões lentos.
  3. Apesar de termos adquiridos pesos argentinos e chilenos antes de sairmos daqui, muitos postos de gasolina (com preços variando entre R$ 3,30 e R$ 3,40 por litro) e até um hotel não aceitavam cartão de crédito, o que nos levou a precisar trocar novamente reais por pesos argentinos.
  4. Adiante de Mendoza, a beleza se apresenta de várias formas e a cada curva, fazendo com que as muitas paradas para contemplar e fotografar sejam obrigatórias – e isso gera uma demora considerável para rodar míseros 100 km.
  5. Nem todos os hotéis contam com serviço de lavanderia: a solução é levar roupas suficientes para todos os dias da viagem ou – meu caso – lavar as roupas no quarto do hotel e secá-las perto dos aquecedores (as calças e camisas do tipo segunda pele secam de um dia para o outro mesmo sem o aquecedor por perto).
  6. Ao contrário da Argentina, onde pagamos pedágio (R$ 3,50) apenas na entrada do túnel subfluvial entre Parana e Santa Fe, no Chile as motos sempre pagam (R$2,50) para utilizar a estrada.
  7. Que me desculpem os mais ortodoxos, mas o GPS é indispensável nesse tipo de viagem. Mesmo nas cidades maiores, como Mendoza ouViña del Mar, a chegada ao hotel foi facílima; nas estradas, algumas mal sinalizadas e sem viva alma em um raio de quilômetros, saber com segurança para que lado seguir foi tranquilizador.

Equipamentos e itens de apoio

  • Conjunto de chuva (jaqueta, calça e botas)
  • Ferramentas básicas (chaves de boca, allen, torx, fenda, phillips e alicate)
  • Lanterna, fita isolante, estilete, arame, lacre plástico e silver tape
  • Reparo de pneu
  • Trava de disco
  • GPS
  • Medicamentos (para azia e dores de cabeça e musculares)

Números da viagem

  • Distância percorrida: 5.013 km
  • Seguro pessoal: R$ 60
  • Seguro carta verde: R$ 110
  • Hospedagem: R$ 1031
  • Combustível: R$ 576
  • Média de consumo da BMW F 800 GS: 22,6 km/l (melhor: 23,9 km/l; pior: 20,8 km/l)

(N. do E.: para não tornar o relato muito monótono, omiti alguns detalhes da viagem; caso alguém queira uma informação pontual, por favor, anote nos comentários e eu respondo em seguida.)

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