Fez feio, o meu freio


A substituição das pastilhas de freio traseiras (executada durante a troca dos pneus no último final de semana) havia me deixado com uma pulga gigante atrás da orelha: por qual motivo estavam encostando no disco? Modelo errado? Medidas fora de especificação? Instalação mal feita? As pastilhas usadas deram a dica: só o lado do pistão estava sendo pressionado contra o disco.

Pastilhas de freios usadas

Por que raios isso estava acontecendo é o que interessa, mas comecemos pelo feijão com arroz.

A substituição das pastilhas de freio da BMW F 800 GS é um processo muito simples e, sem dúvida alguma, pode ser executado por uma pessoa com conhecimentos básicos de mecânica – e um desses conhecimentos básicos é o funcionamento do conjunto de freios: quando o manete (ou o pedal) é acionado, o fluido pressiona um ou mais pistões na pinça, fazendo com que o atrito entre a pastilha e o disco reduza a velocidade da roda (e da moto, portanto).

Essa informação elementar contém nas entrelinhas o maior segredo de uma substituição de pastilhas: o manete (ou o pedal) do freio não pode ser acionado quando as pastilhas não estiverem no lugar: pressionado pelo fluido e sem um limitador de curso, o pistão pode saltar fora e transformar um serviço simples em uma desgraça completa.

O lado direito do trem dianteiro da F 800 GS aparece na imagem abaixo e nela é possível ver, em primeiro plano, a pinça; nas extremidades dela estão os pinos que seguram a pastilha em seu interior. Durante a substituição das pastilhas, apenas o pino inferior (que atravessa a extremidade das pastilhas que possui um furo) é retirado, já que no outro elas são encaixadas.

Pinça de freio dianteira

Pinça de freio dianteira - Parte inferior

Pinça de freio dianteira - Parte superior

Nas fotos acima é possível ver as pastilhas dentro da pinça e o pistão que, ao comando do manete ou do pedal de freio, pressiona as pastilhas contra o disco. Como ele age de um só lado, o outro precisa de uma compensação maior com o passar do tempo e o consequente desgaste – o que não estava acontecendo por culpa do travamento do pino superior.

Agora tudo se encaixava: uma pastilha muito gasta, outra quase nova e um par novo pressionando o disco a ponto de pesar a roda. Se o pino superior tivesse travado em uma posição mais fechada, talvez não fosse possível sequer colocar as pastilhas novas; como ele provavelmente engripou há muito tempo – e o pouco desgaste da pastilha interna indica isso -, só a pastilha externa passou trabalho esse tempo todo.

Há muitos fatores envolvidos nesse problema, mas não deixa de ser um pouco decepcionante ver que uma moto feita para o off-road sofre com a ação dos elementos (areia, cascalho, água, lama, etc) para os quais foi projetada antes dos 17 mil quilômetros. Com o histórico da pinça traseira, aproveitei o final de semana para desmontar as dianteiras e, sem detectar problema semelhante, fiz outros ajustes que estavam na minha lista de pendências há horas.

A esta altura, vale fazer uma observação: o investimento em ferramentas é um mal necessário e, para os serviços que executei, usei um conjunto Torx (pinças dianteiras e guidão) e outro de soquetes com catraca (eixo da roda traseira), ambos facilmente encontráveis nas lojas do ramo e imprescindíveis em viagens longas.

Jogo de chaves Torx

Conjunto soquete com catraca

Minha mexida no guidão tinha dois objetivos: substituir o EVA que eu havia colocado entre o suporte do GPS e o guidão por uma borracha e alinhar mais corretamente o próprio guidão dentro do riser (por algum motivo que desconheço, talvez desleixo meu, as marcas de centralização estavam aparentes).

Suporte do GPS com tira de borracha

Como na vida tudo se transforma, a borracha que agora protege o guidão já foi uma câmara de ar – e acertou quem pensou que estou reutilizando as que troquei. Elas ainda aparecerão muito aqui no Diário de Bordo servindo aos mais variados usos (os afastadores de alforges, por exemplo, serão o próximo).

Para finalizar a manutenção, ajustei milimetricamente a posição do eixo em ambos os lados da balança. Como já ouvi de outros proprietários que – apesar das marcas bastante aparentes – suas motos foram devolvidas com a roda traseira torta, minha suposição é que alguém tenha contado os riscos de um lado e de outro sem se dar conta, talvez pela sujeira da balança e certamente por desatenção, que elas existem acima e abaixo do parafuso em posições diferentes: contar 3 (acima) de um lado e 3 (abaixo) de outro resulta na corrente estralando ao rodar.

Marcas de ajuste na balança

No fundo, todas essas mexidas (e as outras que estão na categoria Manutenção do blog) servem tanto como uma  terapia quanto um aprendizado útil para solucionar os problemas que comumente surgem durante as viagens: eu ainda não tenho habilidade suficiente para tirar a roda do aro utilizando espátulas, mas certamente consigo, da forma correta e com minhas próprias ferramentas, retirar a roda e entregar para um borracheiro fazer o serviço – e isso é especialmente importante naquela borracharia para lá de esquisita no meio do nada.

Terapia? Moto.

(N. do E.: apesar da manutenção dos freios consistir em um procedimento simples, é preciso ter todo o cuidado do mundo ao executá-la: descobrir que não é possível parar a moto ou que o guidão não está firme durante a pilotagem não deve ser nada agradável. Após uma mexida como a que descrevi neste artigo, teste os freios e o guidão ANTES de colocar a moto em movimento.)

19 Comentários

Gostei dos ensinamentos.

Obrigado!!!

Interessante! Já ouvi recomendações de fazer a limpeza das pinças de tempos em tempos. Mas que é estranho lá isso é. As pinças mais atuais são ditas flutuantes e para flutuar precisam de deslocar por sobre os pinos.

Mas Bah. Esse Piréx além de ser um ótimo amigo, é para la de bom mecânico.
Parabéns Pirex

Grande abraço

Seo Craudio

Francisco:
Obrigado por acompanhar o blog.

Renato:
O problema é como limpar as pinças… Sem desmontá-las, é impossível chegar aos cantos delas – sem falar que, numa moto feita para o off-road, é uma brincada no barro e as pinças estão sujas novamente. Seria melhor se as partes móveis fossem mais protegidas, mas parece que – pelo menos nesse caso – não são tanto quanto deveriam.

Seo Craudio:
Ainda estou longe de poder ser chamado de mecânico, mas já consigo resolver uma coisa ou duas quando necessário. Seja como for, tenho até a aposentadoria da minha profissão atual para aprender o ofício e abrir minha própria oficina.

Abraços!

Bom saber destes processos, estou atento, com meu brinquedo, ainda mais depois desta materia…
Valeu Pirex… Abração Jub@__________

Gilberto, fique de olho. Vale a pena evitar essa incomodação.

Abraço!

E falta muito pra te aposentar ? he he he… Vai ser “A” Oficina ! Posta o endereço aqui !

Abç

Ade, vontade não me falta… Quem sabe eu mudo de ramo antes da aposentadoria?

Grande abraço!

Essa parte dos pinos das pinças deslizantes não tem uma vedação perfeita, então as motos que tem um uso off road, ou diário que sejam usadas em dia de chuva, precisar ter esses pinos frequentemente lubrificados, nas Hds é bastante comum travar um dos pistonetes da pinça, então sempre que eu troco uma pastilha limpo a pinça com desengripante, seco bem pra não contaminar a pastilha nova e passo graxa, pouco, no pino do suporte da pinça.
Mas na dúvida procurem seu mecãnico de confiança.

Obrigado pelas dicas, Mauro.

Abraço!

Ótimo texto, Pirex, você está ficando cada vez melhor. O texto está fluindo mais, mais direto e ao mesmo tempo abrangente, com uma linha de raciocínio bem definida e ortografia sem erros. Já não sei se você é um motociclista que escreve ou um escritor que anda de moto. Parabéns!

Obrigado, Gilberto: eu sou amador nas duas coisas – moto e escrita -, mas ambos me divertem tanto que sou um aluno esforçado.

Grande abraço!

Vi, no EBAY, um filtro de óleo para a F 800 GS, feito em aluminho , desmontável e lavável que pareceu-me muito prático e interessante. Alguém tem informações seguras sobre este produto?

Muito interessante, Raul: eu nunca tinha ouvido falar desse filtro. Valeu pela dica. Aparentemente ele filtra melhor o óleo, deixando passar menos partículas, e um magneto permite avaliar o estado do motor em função da quantidade de limalha ou (nos casos em que o óleo do câmbio é o mesmo do motor) outros resíduos. Tem uma discussão na Web Bike World sobre isso que vale a pena ler: há quem discorde, como dá para ver nos comentários, mas vou ficar atento ao assunto para compreender melhor o cenário todo.

Grande abraço!

Pirex,
Excelente seu blog, parabéns.
Vou poderia informar o que fez para destravar a Pinça traseira da F800GS?

Noto que a minha está emperrada.

Abraço.

Boa pergunta, Morlin: faltou essa informação no texto. Quem resolveu o caso foi meu mecânico, depois de retirar a pinça da moto, colocá-la numa morsa para bater, puxar, lubrificar e repetir o processo várias vezes. Fazer isso depende de sangrar o circuito do freio e por isso não encarei o serviço.

Abraço!

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