Salto do Yucumã, Quilmes, parrilladas e muita chuva


Dia desses, um amigo que mora no centro do país sentenciou:

Argentina ou Uruguai para vocês nem é viagem internacional, é volta no quintal.

E é verdade. Bastam uns poucos dias de folga e um alvará da patroa para que nos juntemos e, depois de mais ou menos 500 quilômetros, estejamos na Argentina ou no Uruguai. Desta vez, começamos pelo Salto do Yucumã, entramos na Argentina e acabamos no Uruguai. É o que passo a relatar.

A previsão do tempo para as bandas do Rio Grande do Sul não era das mais animadoras, mas acreditar na chuva durante os próximos 5 dias era um pouco demais. Quem acerta o comportamento do tempo ao longo de 5 dias? A saída vestindo as capas de chuva, entretanto, foi um sinal do que viria pela frente – e os 490 quilômetros que separam Porto Alegre de Tenente Portela, cidade que fica a 20 quilômetros do Parque Estadual do Turvo (onde fica o salto: Derrubadas é mais perto, mas não possui estrutura hoteleira), foram percorridos debaixo de muita água. Depois de várias horas, chegamos junto com o sol a Portela e me lembro de ter pensado na previsão do tempo, sempre errando.

O final de tarde ensolarado rendeu uma caminhada pela cidade, algumas fotos, um par ou mais de cervejas e uma janta onde as soluções para todos os problemas do mundo foram encontradas, como em qualquer mesa de bar.

No dia seguinte, antes das 9h, já estávamos na portaria do parque pagando os R$ 8 que são cobrados por moto para em seguida encarar os 15 quilômetros de chão batido até o ponto do rio Uruguai onde está localizado o Salto do Yucumã (Saltos del Moconá no lado argentino), a maior queda d’água longitudinal do mundo com 1.800 metros de extensão. A época do ano mais recomendada para a visitação é o verão, mas ainda assim pegamos o rio cheio e das quedas de até 20 metros sobrou pouca coisa, fazendo com que cancelássemos o passeio de barco do lado argentino.

Depois de uma caminhada pela Trilha das Onças e da visitação ao museu do parque, voltamos à estrada e miramos em Porto Soberbo, por onde sairíamos do Brasil e entraríamos na Argentina. Depois de algumas informações desencontradas, horas de espera pela balsa e um pastel discutível, finalmente cruzamos o rio Uruguai: foi colocarmos os pés em El Soberbio e, ato contínuo, desabou uma tempestade maior que a do dia anterior.

Motos na balsa sobre o rio Uruguai

Até Oberá foram horas de uma chuva torrencial que nos impediu de fotografar as belezas do rio Uruguai, uma vez que o simples ato de abrir o baú para pegar a câmera certamente resultaria em roupas e equipamentos encharcados. O baixo (inexistente em muitos pontos) volume de tráfego da RP-2 colaborou para que chegássemos à meia-tarde no hotel com o tempo abrindo, o que me fez pensar novamente na previsão do tempo. Agora erraram. Acabou a chuva.

O terceiro dia amanheceu nublado, com o sol tentando dar as caras, e aproveitamos para caminhar por Oberá, registrar a cidade em algumas imagens e procurar as Quilmes e as parrilladas. No meio da tarde a chuva apareceu outra vez, me fazendo repensar a possibilidade da previsão do tempo estar certa.

Falando em Quilmes e parrilladas, vale uma nota adicional: os valores de alimentação e hospedagem na Argentina estão bastante convidativos. Duas diárias com dois cafés da manhã e dois jantares em um hotel-cassino custaram R$ 236, o preço da diária de muitos hotéis apenas razoáveis aqui no Brasil (em Rivera, no Uruguai, uma diária custou R$ 125 em um hotel muito mais simples). A gasolina, por outro lado, está com preços equivalentes aos nossos (cerca de R$ 3,30).

Três dias de viagem e três dias de chuva depois, resolvemos que iríamos para Rivera, no Uruguai (e não Posadas, na Argentina, o plano inicial), se o quarto dia amanhecesse de cara amarrada. Dito e feito. Assim, colocamos as motos na RN-14 em direção a Santo Tomé e tomamos na cabeça, com o perdão do trocadilho, a maior quantidade de chuva da viagem. Foram horas debaixo de um dilúvio, agravado pelos sinais fechados nas cidades que atravessávamos e só o que podíamos fazer era esperar o sinal abrir enquanto apreciávamos a água escorrendo pelo capacete.

Cerca de 100 quilômetros antes de Rivera o tempo abriu e eu já não sabia mais no que apostar: ficar com a capa de chuva ou não? Com o sol a pleno vapor não foi possível ficar com a capa, mas agora estava certo que os 5 dias seguidos de chuva previstos não se confirmariam… Mas bastou guardarmos as motos no hotel e a chuva despencou.

Chuva nos esperando em Rivera

Durante a janta, uma autêntica parillada uruguaia, acabei concluindo que sim, é possível que a previsão do tempo estivesse correta e que rodaríamos com chuva por toda a viagem. O dia seguinte, o último da viagem, amanheceu com um sol a pino e assim fomos, derretendo dentro das roupas, até Porto Alegre. Em cada posto de gasolina, era uma garrafa de água para cada um e alguns minutos de alívio sem jaquetas e luvas.

Eu sabia: a previsão do tempo não acerta nunca.

Rota & distâncias

Origem Caminho Destino Distância
Porto Alegre (BRA) BR-386, Seberi (RS) Tenente Portela (RS) 490 km
Tenente Portela (RS) El Soberbio (ARG), RP-2 Oberá (ARG) 130 km
Oberá (ARG) Santo Tomé (ARG), Quaraí (BRA) Rivera (URU) 580 km
Rivera (URU) BR-158, BR-290 Porto Alegre (RS) 510 km

Exceto por um buraco aqui e uma deformação no asfalto acolá, as estradas por onde passamos estão em condições razoáveis. O trecho de 15 quilômetros de chão batido que fica dentro do Parque do Turvo, entretanto, demanda alguma atenção principalmente se choveu recentemente (a estrada fica no meio da mata e o piso demora a secar).

As aduanas argentinas em El Soberbio e Santo Tomé são descomplicadas e rápidas, provavelmente as mais eficientes por onde entrei e saí da Argentina: na primeira, os papéis de ingresso foram preenchidos pelo funcionário da aduana; na segunda, depois de uma conferência rápida, estávamos liberados.

No final das contas, foi uma volta no quintal de lavar a alma – e não só por causa da chuva, que apenas transformou os 1.700 quilômetros rodados em uma experiência ainda mais interessante. Enquanto a próxima viagem não sai do papel (e ela já está alinhavada), vou tentar desgrudar o barro vermelho que entrou em cada canto da moto.

Obrigado pela parceria, gurizada. Até a próxima.

13 Comentários

Parabéns lindo passeio e ótimo relato. As fotos esta uma atração a parte.
Abraço e que venham novas aventuras.

Prezados,

e não me convidam para essa indiada…vou te contar…

Ovelha

Grande Piréx, ótimo relato e belas fotos. Foi um privilégio ter compartilhado desta motocada com o amigo e um privilégio maior ainda a presença de nosso nobre Prez. E essa chuva torrencial me fez recordar um velho ditado da Lista Shadow: “andar de moto, mesmo quando é ruim é bom”. Valeu a parceria.

Esse povo do sul é que se diverte .. Parabéns gurizada …

Pirex. Assim é que é viver, adorava estar aí nessa viagem com a Minha TDM900, mas estou muito distante. Vai um abraço motard da minha parte e continuação dessa belas e fascinantes viagens.
Joaquim Guerreiro – Portugal

Barabéns (resfriado), Birex e demais viajadores. Ir pro meio do mato com dois homens é coisa sensacional. E com chuva então… Quando eu tiver minha KTM Tigerumph vou com vocês. Por enquanto, fico sentado na frente do computador namorando (as fotos).

Smack

EL GDM

Belo passeio, os saltos de Yucumã estão em minha lista de lugares a conhecer.

Fábio:
Por culpa da chuva, as fotos foram poucas (se compararmos com outras viagens), mas dão uma boa idéia do passeio.

Ovelha:
Isso deve ter sido mais uma das sacanagens daquele nosso amigo.

KD:
Valeu pela parceria. Na próxima vamos pedir menos chuva para São Pedro.

Mauro:
As porteiras estão sempre abertas por aqui. Quando quiseres aparecer, é só avisar.

Joka:
Pelo que acompanho nos blogs de Portugal, não faltam lugares espetaculares para rodar. Quem sabe não rodamos juntos um dia?

GDM:
Aí está uma coisa que está na minha lista: ter a tua companhia em uma viagem de moto. O KD lembrou nessa motocada aquela que vocês fizeram juntos. Até procuramos uma fazenda para ficar, mas não achamos nada na região.

Renato:
Antes de ir para lá, vale a pena ligar para o parque e perguntar comoestá o nível do rio; do contrário, é uma loteria e podes chegar lá e não ver queda nenhuma como aconteceu conosco.

Abraços!

GDM:
Aí está uma coisa que está na minha lista: ter a tua companhia em uma viagem de moto. O KD lembrou nessa motocada aquela que vocês fizeram juntos. Até procuramos uma fazenda para ficar, mas não achamos nada na região.

Eu só proporciono indiadas (leia-se maldades) para alguns.
Para outros, eu sou mais generoso.

Abs

EL CO

Então está combinado, GDM: Ushuaia 2016.

Abraço!

Olá Pirex,
No mês de junho estaremos passando pelo sul do Brasil para finalizar o projeto pontos cardeais. Gostaria de receber apoio com dicas de lugares para conhecer, pontos de GPS, dicas de estradas… Saída do Paraná para o Chuí e pelo litoral até Belém, onde finaliza a viagem na balsa trazendo a moto até Manaus e guardamos o brinquedo em Boa Vista – RR depois de 15 dias de estrada. Conto com sua colaboração.

Fico muito feliz pelas matérias divulgadas em seu blog. A qualidade é de primeiro mundo, parabéns!
Se precisar de algo em Roraima, estamos as ordens.

Forte abraço,

Jean Brustolin

Jean, no que eu puder ajudar, considere feito. Vou te enviar por e-mail algumas informações iniciais e seguimos falando por lá.

Abraço!

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